
O gênero de filmes baseados em histórias em quadrinhos – as HQ’s – tem altos e baixos, tem histórias excelentes e bem contadas, assim como lixos trash que deixam qualquer fã com medo toda vez que lê a notícia de que mais uma obra vai ser adaptada para a telona.
Porém com “V” os fãs podem se acalmar, as frases de desagrado de Alan Moore quando leu o roteiro, foram exageradas – ou talvez tenha feito os irmãos “Matrix”; Andy & Larry Wachowski mudarem o que era diferente da estrutura da trama original, algo que nunca vamos saber ao certo – pois com certeza o espírito visceral da obra impressa está presente no filme.
Temos as simulações de câmera da HQ, presente na tela, cenas foram mudadas sim, mas nada que comprometa a obra, é esperar demais que algo feito para uma determinada mídia – papel – fique excelente em outra – na tela. Raros são os casos como o de Sin City em que essa transição funciona perfeitamente.
Um filme grande nas suas idéias, feito para pensar, questionar ver, tem ação na medida certa, uma fotografia primorosa que passa a idéia de uma Londres futurísticas, mas sem ser fantástica. Os personagens transmitem a emoção de forma contundente, mostrando que a escolha do diretor foi bem-feita. James McTeigue foi assistente de direção dos Wachowski na série Matrix e direção de segundas unidades para George Lucas em Star Wars: Episódio III e nunca havia feito um filme sozinho. Pelo visto aprendeu as coisas certas de como fazer um filme de primeira.

Meus dedos ainda cheiram à pólvora...
V for Vendetta, “V de Vingança” é considerado um marco histórico, representou a guinada que permitiu autores ousarem, transportando as histórias de “diversão” das HQs, ao patamar de arte e literatura, dando a chance de gente do calibre de Neil Gaiman, Frank Miller e outros, criarem universos que expandiam a arte e as idéias ao limite e claro, vez por outra ultrapassando-os.
V de Vingança é uma Graphic Novel – gênero de HQ que foca em trabalhos de qualidade e, geralmente, inovadoras na forma e conteúdo – escrita em 1982 pelo polêmico Alan Moore (para ter uma idéia, ele diz que somente consegue escrever sob efeito de LSD – www.radiola.com.br), chegou na década de 90 ao Brasil e desde de então é citada como ponto culminante do gênero e é lembrada também quando o assunto é liberdade, pioneirismo e transformação no universo da Arte Seqüencial (HQs).
O mérito de V de Vingança – a obra impressa – é ser visceral, panfletária sem ser chata e tampouco generalista, ela leva o leitor a questionar o que faz sua vida ser uma mesmice, coloca o cidadão no ponto de se questionar o quanto está alijado dos esquemões, do mensalão e de como pode interferir e quebrar o círculo vicioso, nem que seja por meio da violência (motivo pelo qual o filme passou por várias distribuidoras antes de chegar a Warner Independent Films, especializada em obras “alternativas”).
A história se passa numa Inglaterra que vive num regime tirânico, fruto de uma ação terrorista (será que Bush leu essa história?), que instaura o medo e permitir fundar um regime no qual as pessoas são vigiadas constantemente (a Inglaterra atual tem o maior número de câmeras de vigilância instaladas da Europa). Seguindo a trilha de “1984”, de George Orwell, todos devem seguir o “regime” e não questionar suas vidas.
Neste cenário de opressão surge um anarquista que se apresenta como codinome "V", que homenageia Guy Fawkes, um conspirador que tentou explodir o parlamento inglês e destronar o monarca James I em 5 de novembro de 1605. O que provocou as desconfianças generalizadas das grandes distribuidoras quanto ao projeto é que “V” enfrenta o sistema com táticas terroristas e passa a representar a única esperança de liberdade contra o fascismo e suas armas de controle. Temia-se justificar a onda de terrorismo atual, com uma obra cinematográfica, ou pior ainda, dar “a” idéia de como resolver os problemas dos políticos atuais (quem na verdade tem medo disso?).
V de Vingança é um filme que pode ser chamado de poderoso, abrangente, emotivo, intelectual (no bom sentido), faz pensar, questionar, alivia a tensão por meio de boas cenas de ação; elas não dominam a obra, entram na hora certa e terminam na hora certa – e cria um clima que envolve o espectador de forma a transportá-lo para dentro da Inglaterra tirânica dando-lhe a chance de se sentir como V (ele é todos nós).
Embora tenham se passado mais de 10 anos da obra original, V de Vingança é atual em seus questionamentos, na forma que o terrorismo domina a cena política internacional, nas questões que envolvem as armas do estado e do mercado e na ação do indivíduo resistindo as forças massificantes patrocinadas pelo mercado-estado.
Guy Fawkes is alive!

Vida de jornalista, apesar dos pesares, tem suas facilidades. Não reclamo, na verdade, como cinéfilo, considero isso um dos prazeres “colaterais”. Claro que por vezes, você é convidado para ver alguns filmes que não só, são difíceis de você “naturalmente” ver, como com certeza, preferia não escrever sobre eles, para depois não gastar tempo falando de algo o qual teria de dirigir uma considerável dose de acidez – como a porcaria (olha o ácido escorrendo) da Mulher-Gato – filme homônimo da sensual Selina Kyle – vilã do universo de Batman, mas destruída num película tosca e sem sentido, estrelada por Hale Barry.
Dessa forma, não sei quanto aos outros jornalistas – uma classe complicada que gosta de se esmerar em defender posições “só para contrariar” – mas prefiro usar meu tempo para falar de bons filmes, mesmo que as vezes nem só os que eu goste sejam bons, afinal tem para todos os gostos, apesar dos desgostos de ver filmes como o que citei anteriormente.
Mas pela minha experiência, essa não é a questão em Batman Begins -http://www.br.warnerbros.com/batmanbegins/ – o qual tive a oportunidade de assistir hoje 14/06/2005, numa seção para a imprensa e do qual saí com a certeza de ser realmente o 1º filme do Batman em todos os sentidos.
Unindo os roteiros de 3 grandes marcos da história do homem-morcego – Batman Ano Um (Frank Miller/ David Mazuchelli), Terra de Ninguém (Greg Rucka/Vários) e Cavaleiro das Trevas (Frank Miller/Klaus Jenson); Chris Nolan e David Goya criaram a versão mais verossímil e impactante do herói, permitindo que fãs e leigos não só assistam a um bom filme de ação, mas entendam o que motiva Bruce Wayne a se tornar o cruzado mascarado que detona o crime nas noites de Gotham City.
As cenas de ação criam um clima intenso, com cortes rápidos e acompanhando a ação, que se passa sempre nas sombras, deixam o espectador com receio de tudo que se move na tela. Tudo assusta e cria a sensação o Batman está ali ao seu lado, a trilha sonora não se destaca, pois está a serviço do diretor, ela não tem que vender CD´s, e também, tampouco o filme vende bonecos (como Joel Schumacher reclamou quando perguntado sobre o fracasso de Batman e Robin, o "suposto" 4º filme da franquia).
O que você adquire quando compra os ingressos é um filme de verdade, feito de forma verdadeira. Quando Christian Bale está no alto de um prédio, ele relamente está lá, sem dublês - machucou-se consideravelmente nas filmagens - o ator ganhou 26 Kg para chegar no porte q a sua roupa exigia, aliás, uma roupa criada de forma inteligente, diferente da "armadura rígida" que imoblizou literalmente o personagem nas 4 produções anteriores.
Não existe nada supérfluo na roupa do herói, desde de as garras nos braços até sua capa, possuem explicação plausível, a parafernália de armas e “brinquedos” é toda baseada em tecnologias que ou estão, ou ainda estarão na mente de pesquisadores reais, dessa forma existe uma proximidade entre o fantástico e o real, fugindo do triunvirato – computação gráfica/ arames/ figurantes de Hong Kong - sem cenas belas e fáceis, Batman impressiona, pois o herói se machuca, quebra, sangra e luta, embora lute mais contra seus medos, do que contra os bandidos.
Na história dos personagens de quadrinhos adaptados para as telonas o Batman estabeleceu um novo patamar para os personagens das franquias da DC Comics. Brian Singer, com seu Superman, deverá repensar como estruturar o “escoteiro azul”, que por um triz não se tornou um ícone gay com as fotos do novo uniforme, algo que preocupou os produtores a ponto deles nutrirem boatos sobre novas mudanças na roupa do “azulão”.
Já Avi Arad – produtor da Marvel – não poderá permitir que os X-Men, 1ª franquia de quadrinhos a sair do limbo das produções Z, siga os caminhos que ele traçou nas péssimas produções de Demolidor, Hulk e Elektra.

Segundos, esse é o tempo em que se mede a aceleração e a força de um carro. RPM – Rotações por Minuto – 60 segundos, o tempo do coração. Imaginar uma paixão para o século 20, seria difícil não citar o automóvel, de toda as máquinas que transformaram nossa forma de ver o mundo, o transporte automotivo é uma das que mais acrescentou fossem problemas ou soluções as cidades. Mas, independente do lugar ou da época, os carros são uma paixão e geralmente masculina.
A velocidade que acompanha a paixão pelos carros os faz ser uma busca por instantes únicos, a construção de momento de prazer a cada acelerada, um barulho grave que excita e movimenta a adrenalina.
Um carro, podemos comparar como uma mulher – as feministas atirarão seu sutiãs em fogo na minha direção – mas para os que já passaram pelos seus maravilhosos caprichos, suas histórias e seus humores (tanto dos carros, quanto das mulheres), entendem que isso é um elogio. Pois é uma paixão eterna.
Acredito que carros tenham uma natureza maior do que simplesmente sua marca ou sua performance, tem personalidade. Um carro é uma entidade maior do que soma das suas partes. Ele é uma mescla de desejo e força, uma realização prazerosa de velocidade e de momentos únicos.
Pilotar um carro – não dirigir –, é na verdade estar numa torrente de seguidos instantâneos. A cada segundo você vê menos do que está a sua volta, tudo tende a parar, se você está a 40Km/h, você pode ver a cada segundo até cerca de 10 metros, já a 120 Km/h passa pelo seu olho mais de 30 metros de eventos. Portanto, o carro comprime a realidade até o motorista estar preso num único instante, em que tudo acontece ao mesmo tempo. Lembra-se quando se apaixonou a 1ª vez?
Na fotografia o instante fica preso, no carro ele flui até se perder, são direções opostas de vivência, tudo se torna borrado, como se visto por uma velocidade de obturador lenta demais. Para capturar o instante seria necessária uma câmera na qual a velocidade fosse cada vez mais alta, numa evolução inimaginável.
Porém a cada segundo se vai mais rápido, acelerar o próprio tempo em que tudo ocorre, borrando a realidade que percebemos. Não retemos o que acontece ao nosso redor, tornando-se necessário prendê-lo em pequenos instantâneos, de forma a podermos reconstituir a vida como era em sua origem. Dessa forma a foto é o resgate dos momentos decisivos, fruto de uma outra época.
Os carros antigos vão contra a troca contínua do novo, uma necessidade moderna – o ficar, a amizade colorida, entre outras invenções – nos carros colecionados por várias pessoas ao redor do mundo, a história resiste, o tempo passa lentamente e os momentos ficam congelados. Motores, gasolina, roncos alimentam a paixão, preservando da mesma forma que a fotografia, instantes e momentos num caixa gigantesca de eventos decisivos que alimentaram o imaginário e deixam sua marca. Eles respondem suavemente ao toque, deixam sua marca e presença por onde passam e seu perfume é inconfundível.

A fotografia vista como arte de representação da realidade em instantes únicos, num recorte de realidade e coleção de instantâneos, como que guardando numa caixa vidas e respirações que, num post-mortem, são resgatados em contextos diferentes, já que o instante inicial não será recuperado. É a arte de um único presente.
A gastronomia é definida como o conhecimento de tudo aquilo que alimenta o homem, tendo como objetivo zelar pela conservação do ser humano. Os princípios básicos da gastronomia estão ligados ao sabor, em nutrir o paladar. As receitas, guardadas pelos chef’s, pelas avós, pelas fofoqueiras, são como fotografias, “instantâneos de Bresson”, sabores que nos remetem a instantes da nossa vida, à canja da avó de quando ficamos de cama, ao cheiro de leite quente de manhã cedo, ao bolo de cenoura da casa da tia gorducha. Remetem ao paladar sentimentos, sabores que não se repetem a cada receita – o mesmo prato, a cada nova feitura, muda a consistência, até mesmo o sabor.
A foto é a extensão do olho, a gastronomia a extensão dos sentidos. Na foto, é o contraste da luz; na gastronomia, dos sabores. Na comida, captura-se a vida; alimento é vida, como na fotografia.
Um prato principal encanta aos olhos, mas seu sabor nem sempre é a única lembrança que está presente na mesa. Por vezes, se faz necessário molhos, um ambiente que crie espírito de presença. Da mesma forma que a foto leva a leitura a coordenar cérebro, olho e coração, as tonalidades dos temperos constroem facetas que levam à persistência da cena que marca o gourmand.
Na gastronomia, a escolha errada desanda a sobremesa, azeda o creme, prejudica a mais requintada das comidas – que então vai para o lixo – pois se torna intragável. Da mesma forma, a foto só captura quando já é irremediável o estrago na comida.
As escolhas erradas na fotografia só são percebidas tardiamente pela intuição, assim como o paladar do gourmet, que deveria ter alertado o fotógrafo (cozinheiro) sobre a boa foto.
Os livros de receitas são esboços; sequer chegam perto de ser alimento ou de garantir ao leitor que delas saia algo que ajude no preparo do alimento ou sua amplitude como refeição, pois a intuição, aliada fundamental do bom chef, dá ao olho e à mão a dose de expertise para a realização exata da receita. A gastronomia só se forma porque se resolve ir além do trivial, ousar nos limites do paladar, quebrar o doce com o amargo e o salgado com azedo, criando pacientemente novas formas de destilar sabores.
No banho-maria, retira-se suavemente o sabor, evaporando os voláteis e fixando os sólidos; no assado, tudo se prende numa “casca” rígida, da qual é preciso cortar posteriormente para servir adequadamente. No cozido, as possibilidades são inúmeras, como na foto que, embora no quadrado do papel, se presta a várias leituras, técnicas, matizes, papéis, que quebram a realidade e a lançam no pensamento e no olhar.
Praticar a gastronomia é respeitar o ambiente; o habitat é essencial para se apreciar a comida, respeitar as mudanças de estações, saber que os temperos mudam com as estações; assim como as pessoas mudam e tem de estar ambientadas, o bom gourmet é transparente à sua comida, o que significa que, para experimentar a comida, o gourmand não deve prestar atenção ao cozinheiro. A comida deve ser o foco e ser tão espontânea que sua passagem seja um ato de prazer marcante pela sua transitoriedade, não pela sua complexidade.
Um prato também é um arranjo. Os ingredientes não são jogados sem intenção; há ordem intuitivamente orgânica para fazer o olhar caminhar pelo prato, acender os sentidos e instigar o desejo de possuir o instante para sempre.
Esse desejo é gerado pelo equilíbrio das pequenas diferenças de sabores. Cria-se uma estreita relação de formas que, aliadas à técnica de cozer tudo no seu ponto certo, transporá o paladar àquele lugar oculto de nossas lembranças no qual se realizam os sonhos.
![]() | ||
![]() | ||
![]() | ||
|
||